“A imaginação gosta de brincar. A brincadeira de que ela mais gosta é o faz-de-contas. É brincando de faz-de-contas que ela constrói brinquedos. Faz de contas que uma lata de sardinha é um carrinho . Faz de contas que o cachorrinho de pelúcia é um cachorrinho de verdade . Faz de contas que o travesseiro macio é uma pessoa de quem a gente gosta muito. Faz de contas que esses bolinhos de barro são brigadeiros(...) Mas a imaginação sozinha não faz arte. Quem faz a obra de arte é o artista.”
(Rubem Alves)
Ontem visitei
minha infância ao ler a crônica “Casas que emburrecem”, de Rubem Alves. Para o
educador há casas emburrecedoras e há casas que fazem a inteligência florescer.
Posso dizer que o lar de onde eu venho é um ambiente propício ao estímulo da criatividade.
Meu pai sempre foi um bom
inventor de coisas. Ele possui a arte de resignificar objetos velhos. Há quem o
considere um acumulador de quinquilharias, eu prefiro vê-lo como um descobridor
de utilidades. Foi esse talento que alimentou minha infância.
As caixas de papelão serviam para
construir casinhas de bonecas, latinhas de sardinha e tampinhas de refrigerante
viravam carrinhos, os jornais do dia anterior se tornavam barcos, as latas de
leite e os potes de manteiga tiveram mil utilidades. Descartar era verbo
improvável. Minhas bonecas tinham formas alienígenas, braços e pernas
coloridos, de diferentes tamanhos, uma junção dos pedaços que sobreviviam à
minha inocente destruição. Nada era inutilizado, tudo trazia consigo a mágica
da transformação nas mãos de um artista que tinha por ofício a paternidade.
Recordo-me das revistas velhas e dos
livros usados com páginas faltosas que ele levava para casa. Cuidadosamente desamassava
as revistas e encapava os livros com restos de tecidos e sobras de plásticos. Em
casa havia sempre uma estante repleta desses exemplares e tínhamos a liberdade
para folhear, rabiscar e recortar. Nada nos era proibido. Dos livros muitos não
cheguei a ler, contentava-me em abrir e sentir o cheiro bom de livro velho. Aqueles que eu lia me surpreendiam com páginas
faltosas e me forçavam a imaginar o decorrer da história, os diálogos, os
cenários, os personagens secundários. Comecei ali a escrever, motivadas pelas leituras
incompletas que fazia.
Um certo dia, já na adolescência,
me deparei com um livro bem deteriorado, de páginas amarelas, soltas e marcados por traças. Era “Contos de Machado
de Assis”. Não sei como fora parar em minha casa. Meu pai limpou, costurou e colou
novamente as folhas, conservando seu formato original. O livro voltou à vida, ali
estava um tesouro. Machado me acompanha até hoje.
A “Antologia Poética”, de
Vinícius de Moraes, também apareceu por lá. Virou meu livro de cabeceira e
embalou meus romances juvenis. Iniciei uma coleção de cactos por amor à Elegia
Lírica.
"(...) A minha namorada é tão bonita, tem olhos como besourinhos do céu
Tem olhos como estrelhinhas que estão sempre balbuciando aos passarinhos
É tão bonita! tem cabelo fino, corpo menino e um andar pequenino
E é a minha namorada...Vai e vem como um patativa, de repente morre de amor
Tem fala de S e dá a impressão que está entrando por um nuvem adentro
Meu Deus, eu queria brincar com ela, fazer comidinha, jogar nai-ou-nentes
Rir e num átimo dar um beijo nela e sair correndo
E ficar de longe espiando-lhe a zanga, meio vexado, meio sem saber o que faça..
A minha namorada é muito culta, sabe artimética, geografia, história, contraponto
E se eu lhe perguntar qual cor é a mais bonita ela não dirá que é roxo porém brique
Ela faz coleção de cactos, acorda cedo vai para o trabalho
E nunca se esquece que é a menininha do poeta"
"(...) A minha namorada é tão bonita, tem olhos como besourinhos do céu
Tem olhos como estrelhinhas que estão sempre balbuciando aos passarinhos
É tão bonita! tem cabelo fino, corpo menino e um andar pequenino
E é a minha namorada...Vai e vem como um patativa, de repente morre de amor
Tem fala de S e dá a impressão que está entrando por um nuvem adentro
Meu Deus, eu queria brincar com ela, fazer comidinha, jogar nai-ou-nentes
Rir e num átimo dar um beijo nela e sair correndo
E ficar de longe espiando-lhe a zanga, meio vexado, meio sem saber o que faça..
A minha namorada é muito culta, sabe artimética, geografia, história, contraponto
E se eu lhe perguntar qual cor é a mais bonita ela não dirá que é roxo porém brique
Ela faz coleção de cactos, acorda cedo vai para o trabalho
E nunca se esquece que é a menininha do poeta"
E por falar em Cactos meu pai é
um exímio jardineiro. Não de ofício, pratica a jardinagem por amor.
Ensinou-me a mexer na terra e a
acreditar que as plantas purificam o ambiente. Tínhamos espadas de são Jorge e
hortas em todas as casas que moramos. Em uma delas plantamos um abacateiro que
nunca vi o fruto, mas que por anos esperei vê-lo florescer. Aprendi com meu pai
que plantas convidam passarinhos, que convidam borboletas, que convidam gente
de coração bom. A jardinagem replica o amor.
Ao lado dele está minha mãe, uma
costureira admirável. Nunca me interessei pela arte da costura, mas me
fascinava sua capacidade em ver algo escondido na essência de um pedaço de
pano. Suas máquinas eram o parque de diversões das minhas bonecas, um castelo encantado
fora do padrão.
Posso dizer que meus irmãos e eu crescemos
em um lar favorável a arte de criar. Não fomos ensinados pelo viés artístico
tradicional, tivemos como escola os quatro cantos da nossa casa e em nossos
pais os melhores professores. Vivemos
nossa infância em um ambiente de estímulo ao desenvolvimento de habilidades emocionais
e sociais. Ao vê-los transformando tudo ao nosso redor aprendemos que
resignificar é o caminho para solucionar quase todos os problemas. Resignifique
qualquer coisa, seja objetos, dores ou opinião, e verás que para tudo há sempre
outras possibilidades.
A casa dos meus pais até hoje
mantêm a mesma essência. A estante de livros e revistas velhas ainda está lá, as
invenções do meu pai são renovadas a cada dia e as máquinas da minha mãe ainda
servem de parque de diversões para bonecas. Não mais para as minhas. Atualmente
eles exercem a função de avós de duas meninas lindas.
