segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Um cão, uma gata e a lição da minha vida


Eu moro com uma gata e um cachorro. Dois animais de espécies distintas, com energia e necessidades completamente diferentes. São duas criaturas opostas que convivem harmonicamente num pequeno espaço de 60 m². E eu nunca imaginei que eles me ensinariam tanto sobre a arte de relacionar-se com os que nos são diferentes.

Quando Mabel chegou o Tony já tinha mais de um ano. A casa era dele, meu afeto era só dele. Ali era seu território. Mas os animais, quando bem educados, não apresentam problemas em compartilhar, bastou apenas dois dias para Mabel encontrar seu lugar na casa.

Foi incrível ver que nestes primeiros dias o Tony a deixou livre, apenas observava com olhar curioso e, às vezes, se atrevia a um contato sem muito sucesso. Ele percebeu que naquele momento ela precisava encontrar o espaço dela na casa e que não era momento de insistir numa aproximação. Desistiu do contato e seguiu o rumo normal dos seus dias.

Com o tempo ele foi buscando mais aproximação, às vezes era rejeitado, às vezes aceito. Tentou brincar com ela, do jeito dele, mas logo percebeu que ela não ia sair correndo atrás de uma bola. Aquela não era a brincadeira dela. Nitidamente frustrado partiu em busca de algo que pudesse interessá-la, foi então que descobriu que um novelo de linha de crochê era muito interessante para uma felina. Ele correu na casa com o novelo na boca e ela correu atrás da linha que ficou solta. Tenho certeza que este foi dia mais feliz da vida dele.

Agora ele tinha uma amiga e sabia brincar com ela. Desde então começaram a compartilhar a casa, os brinquedos, o sono, a agua e ate a ração, mesmo a meu contragosto.

Eles brincam e brigam muito. Nem sempre Mabel quer brincar, nem sempre ela quer ficar perto dele e quando ele insistentemente a obriga ela se irrita e se esconde. Ele entende que aquele não é o momento e se afasta, minutos depois estão juntos novamente.

Hoje, depois de oito meses de convivência eles desenvolveram o que toda amizade sincera é passível de permitir, a necessidade do outro. Mabel não fica sozinha em casa sem o Tony. Ela escandaliza um miado estridente até ele voltar e quando volta se enrosca como um gesto de carinho. Isso me custou dias de preocupação, pois sempre que ia levar o Tony para passear tinha que vê-la estressada na janela.

Decidi leva-la passear também, mesmo com todo o medo do mundo dela fugir e nunca mais voltar. Engano meu, naturalmente ela nos acompanha ou fica estrategicamente num ponto visível aguardando por nós. É um momento único para os dois, digo para os três, pois para mim é incrivelmente belo ver tamanha harmonia. É nítido que nesta convivência há respeito, afeto, cuidado e proteção. E o que isto tem haver com as minhas relações?

Eu não aprendi de forma tão natural a lidar com aqueles que são diferentes de mim. Foi preciso muitos anos e muitas perdas na vida para hoje ter a capacidade de olhar e refletir sobre isso. Nós humanos somos ensinados a buscar os nossos pares e isto significa buscar aqueles que nos são parecidos, iguais na forma de ver, pensar e vivenciar o mundo. Mas nossa existência não se resume a isto, temos que conviver com pessoas bem diferentes de nós e precisamos fazer desta experiência um aprendizado bom para todos.

Nas minhas andanças tive que compartilhar moradia com muitas pessoas diferentes. Não foi fácil. Minha primeira experiência foi um tanto desastrosa. Não conhecia aquelas pessoas e já fui morar com elas, era uma necessidade que o trabalho exigia. Houveram momentos bons e houveram momentos extremamente ruins. Os piores que já vivi até então.

Foi uma forma dolorosa de aprender. Ali não era a casa dos meus pais onde eu podia mostrar toda minha insatisfação sem me preocupar com os danos que isto causaria. Ali também não era a escola onde eu poderia escolher aqueles que iriam sentar do meu lado e dividir o lanche. Aquelas pessoas estavam ali pelo mesmo motivo que eu e era muito egoísmo achar que elas estavam no lugar errado ou que deviam se adequar ao meu gosto. E nem eu deveria me adequar aos delas. Éramos diferentes, por nossos valores, trajetórias de vidas...éramos diferentes e tínhamos que aprender a lidar com isso.

Nós temos dificuldade em conviver com aqueles que são diferentes de nós. Não deveria ser um desafio pra humanos conscientes já que para dois animaizinhos esse processo foi tão natural. Nos falta algo que os animais tem de sobra, nos falta a habilidade de sermos sensíveis às necessidades do outro.

É obvio que não somos obrigados a estar ao lado de quem não compartilha conosco o mínimo de afinidade para a manutenção de uma relação saudável, nem somos obrigados a permanecer numa relação que não nos completa pela diferença gritante de valores e expectativas. Cabe a cada um de nós decidirmos se a relação é realmente necessária e por quanto tempo estamos dispostos a permanecer nelas.

Respeitar as necessidades do outro e aprender a conviver com elas é a grande lição que Tony e Mabel me ensinam diariamente. Depois que comecei a observar a forma como eles lidam com suas diferenças e demonstram amar apesar delas fui olhar para meu mundo com outros olhos.

Eu poderia ter me despedido de muita gente de forma mais amigável se não houvesse deixado que apenas as disparidades tivessem guiado a convivência.

Eu poderia ter mantido algumas amizades interessantes se estivesse aberta a olhar o mundo do outro pelos seus olhos, não pelos meus.

Eu poderia ter partido de algumas relações com mais leveza, pois reconhecer que partir em alguns casos é a essência máxima do respeito pela individualidade do outro.

Hoje eu sei bem mais que ontem, graças a dois animais que me mostram diariamente que afeto e respeito tornam qualquer convívio possível, mesmo aqueles mais improváveis.


sábado, 27 de setembro de 2014

Sobre criatividade, livros e jardins...



“A imaginação gosta de brincar. A brincadeira de que ela mais gosta é o faz-de-contas. É brincando de faz-de-contas que ela constrói brinquedos. Faz de contas que uma lata de sardinha é um carrinho . Faz de contas que o cachorrinho de pelúcia é um cachorrinho de verdade . Faz de contas que o travesseiro macio é uma pessoa de quem a gente gosta muito. Faz de contas que esses bolinhos de barro são brigadeiros(...) Mas a imaginação sozinha não faz arte. Quem faz a obra de arte é o artista.”
                                                                                                                                                                                (Rubem Alves)



Ontem visitei minha infância ao ler a crônica “Casas que emburrecem”, de Rubem Alves. Para o educador há casas emburrecedoras e há casas que fazem a inteligência florescer. Posso dizer que o lar de onde eu venho é um ambiente propício ao estímulo da criatividade.

Meu pai sempre foi um bom inventor de coisas. Ele possui a arte de resignificar objetos velhos. Há quem o considere um acumulador de quinquilharias, eu prefiro vê-lo como um descobridor de utilidades. Foi esse talento que alimentou minha infância.

As caixas de papelão serviam para construir casinhas de bonecas, latinhas de sardinha e tampinhas de refrigerante viravam carrinhos, os jornais do dia anterior se tornavam barcos, as latas de leite e os potes de manteiga tiveram mil utilidades. Descartar era verbo improvável. Minhas bonecas tinham formas alienígenas, braços e pernas coloridos, de diferentes tamanhos, uma junção dos pedaços que sobreviviam à minha inocente destruição. Nada era inutilizado, tudo trazia consigo a mágica da transformação nas mãos de um artista que tinha por ofício a paternidade.

Recordo-me das revistas velhas e dos livros usados com páginas faltosas que ele levava para casa. Cuidadosamente desamassava as revistas e encapava os livros com restos de tecidos e sobras de plásticos. Em casa havia sempre uma estante repleta desses exemplares e tínhamos a liberdade para folhear, rabiscar e recortar. Nada nos era proibido. Dos livros muitos não cheguei a ler, contentava-me em abrir e sentir o cheiro bom de livro velho.  Aqueles que eu lia me surpreendiam com páginas faltosas e me forçavam a imaginar o decorrer da história, os diálogos, os cenários, os personagens secundários. Comecei ali a escrever, motivadas pelas leituras incompletas que fazia.

Um certo dia, já na adolescência, me deparei com um livro bem deteriorado, de páginas amarelas, soltas e  marcados por traças. Era “Contos de Machado de Assis”. Não sei como fora parar em minha casa. Meu pai limpou, costurou e colou novamente as folhas, conservando seu formato original. O livro voltou à vida, ali estava um tesouro. Machado me acompanha até hoje.

A “Antologia Poética”, de Vinícius de Moraes, também apareceu por lá. Virou meu livro de cabeceira e embalou meus romances juvenis. Iniciei uma coleção de cactos por amor à Elegia Lírica.

"(...) A minha namorada é tão bonita, tem olhos como besourinhos do céu
Tem olhos como estrelhinhas que estão sempre balbuciando aos passarinhos
É tão bonita! tem cabelo fino, corpo menino e um andar pequenino
E é a minha namorada...Vai e  vem como um patativa, de repente morre de amor
Tem fala de S e dá a impressão que está entrando por um nuvem adentro
Meu Deus, eu queria brincar com ela, fazer comidinha, jogar nai-ou-nentes
Rir e num átimo dar um beijo nela e sair correndo
E ficar de longe espiando-lhe a zanga, meio vexado, meio sem saber o que faça..
A minha namorada é muito culta, sabe artimética, geografia, história, contraponto
E se eu lhe perguntar qual cor é a mais bonita ela não dirá que é roxo porém brique
Ela faz coleção de cactos, acorda cedo vai para o trabalho
E nunca se esquece que é a menininha do poeta"


E por falar em Cactos meu pai é um exímio jardineiro. Não de ofício, pratica a jardinagem por amor.
Ensinou-me a mexer na terra e a acreditar que as plantas purificam o ambiente. Tínhamos espadas de são Jorge e hortas em todas as casas que moramos. Em uma delas plantamos um abacateiro que nunca vi o fruto, mas que por anos esperei vê-lo florescer. Aprendi com meu pai que plantas convidam passarinhos, que convidam borboletas, que convidam gente de coração bom. A jardinagem replica o amor.

Ao lado dele está minha mãe, uma costureira admirável. Nunca me interessei pela arte da costura, mas me fascinava sua capacidade em ver algo escondido na essência de um pedaço de pano. Suas máquinas eram o parque de diversões das minhas bonecas, um castelo encantado fora do padrão.

Posso dizer que meus irmãos e eu crescemos em um lar favorável a arte de criar. Não fomos ensinados pelo viés artístico tradicional, tivemos como escola os quatro cantos da nossa casa e em nossos pais os melhores professores.  Vivemos nossa infância em um ambiente de estímulo ao desenvolvimento de habilidades emocionais e sociais. Ao vê-los transformando tudo ao nosso redor aprendemos que resignificar é o caminho para solucionar quase todos os problemas. Resignifique qualquer coisa, seja objetos, dores ou opinião, e verás que para tudo há sempre outras possibilidades.

A casa dos meus pais até hoje mantêm a mesma essência. A estante de livros e revistas velhas ainda está lá, as invenções do meu pai são renovadas a cada dia e as máquinas da minha mãe ainda servem de parque de diversões para bonecas. Não mais para as minhas. Atualmente eles exercem a função de avós de duas meninas lindas.












terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Os Bombons Mágicos de Clarinha Claus


    
Era uma caixa pequena, bonita, muito enfeitada. Tinha um laço grande, botões coloridos, dentro alguns papéis de seda e bombons, muitos bombons. Não eram bombons comuns, na caixa tinha um aviso dizendo:
                                  " Bombons mágicos! Use com moderação"
    Bombons mágicos??? Clarinha Claus fez um cara de susto e correu para onde estava sua mãe. Queria saber o que era aquilo e quem tinha deixado dentro de sua mochila. Pela manhã quando ela organizou sua bolsa não havia nenhuma caixa muito menos os tais de bombons mágicos.
A mãe fingiu que nada sabia e sugeriu que ela guardasse a caixa em um lugar especial, afinal se os bombons fossem realmente mágicos eles seriam um grande tesouro.
    -Bombons mágicos! Bombons mágicos!! Clarinha ficou feliz e guardou seu pequeno tesouro em um cantinho especial do guardaroupa. Não sabia quando devia usar. Precisava esfregar como a Lâmpada de Aladim? Era só comer e fazer um pedido?? A caixa não tinha manual de instruução e a menina dormiu pensando nos bombons.
    Dias se passaram e não encontrou nada de mágico nesses bombons. Tinha pedido bonecas, ursos e todo tipo de coisa e nada aconteceu. Foi então que em um dia qualquer ela acordou, pegou um bombom e foi para a escola. Ela gostava muito da professora e queria que ela também tivesse um bombom mágico, mas antes de poder dizer alguma coisa encontrou a professora chorando em uma sala perto do corredor, ela chorava baixinho, enxugou o rosto e entrou na sala de aula. Em cima da mesa encontrou o bombom.
    A professora sorriu! O choro sumiu.
   Será se o bombom enxugou o choro da professora?
   Clarinha voltou para casa e no outro dia testou outros bombons. O menimo malcriado ficou quieto a aula toda, a menina tímida da sala do lado brincou o recreio inteiro e fez novas amizades, a mais chata da sala foi legal com todos e a supervisora que sempre brigava com todo mundo estava tão feliz que neste dia não reclamou de ninguém. A vizinha abriu as janelas e sua filha pode brincar no parquinho.
    Os bombons eram mesmo mágicos.
    O segredo foi descoberto. Clarinha já sabia como usar os bombons.
    Um por um os bombons foram acabando. Clarinha sabia que tinha usado com moderação, mas não havia bombom suficiente para a vida toda. E agora, o que fazer sem os bombons mágicos?
    Depois que os bombons acabaram Clarinha percebeu que a supervisora continuava legal e o menino malcriado não mexeu em sua mochila. A filha da vizinha lhe fez companhia no parque e a mais chata da sala se tornou sua amiga. Foi aí que a Clarinha percebeu que a magia não estava no bombom.
                                       A magia estava na gentileza. 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012




 

Como ganhar o mundo sem deixar de lado a segurança?
Como manter a segurança sem deixar de ganhar o mundo?

Transcendendo primeiro a alma,
Transcendendo depois o amor,
Ultrapassando os limites,
Derrubando as paredes, as próprias paredes
O mundo inteiro cabe em nós.
A segurança está naquilo que nos torna fortes.


segunda-feira, 12 de março de 2012

Pétalas ao chão



"O mais difícil em perder não é propriamente a dor da perda, mas a busca diária para habituar-se com a falta."

Habituando-me.

                                                                                                                                      (Regislany Morais)

quinta-feira, 8 de março de 2012

Regislayne Morais




Esse momento era um sonho de todos nós. Lembro que, ainda quando dividiamos o mesmo quarto, você passava a noite acordada estudando, me incomodando com a luz acesa. Apesar do cansaço, das privações, você estava todas as noites ali, sempre muito decidida e determinada. Muitas dificuldades se passaram, muitas outras conquistas você teve antes dessa, mas em todas elas você conseguiu deixar sua marca registrada: um sorriso tão encantador que decifra sua personalidade em segundos.

O dia da mulher ser também o dia da sua solenidade de colação de grau não é só uma mera coincidência, foi a forma que Deus encontrou de te parabenizar por cada passo dado até hoje. E de nos dizer: Ela merece todos os aplausos de hoje.

 E eu nunca canso de dizer que eu te admiro, Regislayne Morais.

sábado, 3 de março de 2012

Eu, por eu mesma

 


     Eu me considero uma pessoa que possui escolhas e capacidade de escolher. Se hoje eu tenho autonomia para analisar e escolher uma proposta de trabalho, uma possibilidade de compra porque não posso, também, decidir o que eu aceito ou não em um relacionamento. Não é porque eu gosto de alguém que preciso aceitar todas as regras impostas. Eu também tenho as minhas opiniões e quem quiser estar ao meu lado precisa, no mínimo, respeitá-las. Não encaro isto como egoísmo, mas como auto-respeito, e dele, felizmente, não abro mão.