sábado, 27 de setembro de 2014

Sobre criatividade, livros e jardins...



“A imaginação gosta de brincar. A brincadeira de que ela mais gosta é o faz-de-contas. É brincando de faz-de-contas que ela constrói brinquedos. Faz de contas que uma lata de sardinha é um carrinho . Faz de contas que o cachorrinho de pelúcia é um cachorrinho de verdade . Faz de contas que o travesseiro macio é uma pessoa de quem a gente gosta muito. Faz de contas que esses bolinhos de barro são brigadeiros(...) Mas a imaginação sozinha não faz arte. Quem faz a obra de arte é o artista.”
                                                                                                                                                                                (Rubem Alves)



Ontem visitei minha infância ao ler a crônica “Casas que emburrecem”, de Rubem Alves. Para o educador há casas emburrecedoras e há casas que fazem a inteligência florescer. Posso dizer que o lar de onde eu venho é um ambiente propício ao estímulo da criatividade.

Meu pai sempre foi um bom inventor de coisas. Ele possui a arte de resignificar objetos velhos. Há quem o considere um acumulador de quinquilharias, eu prefiro vê-lo como um descobridor de utilidades. Foi esse talento que alimentou minha infância.

As caixas de papelão serviam para construir casinhas de bonecas, latinhas de sardinha e tampinhas de refrigerante viravam carrinhos, os jornais do dia anterior se tornavam barcos, as latas de leite e os potes de manteiga tiveram mil utilidades. Descartar era verbo improvável. Minhas bonecas tinham formas alienígenas, braços e pernas coloridos, de diferentes tamanhos, uma junção dos pedaços que sobreviviam à minha inocente destruição. Nada era inutilizado, tudo trazia consigo a mágica da transformação nas mãos de um artista que tinha por ofício a paternidade.

Recordo-me das revistas velhas e dos livros usados com páginas faltosas que ele levava para casa. Cuidadosamente desamassava as revistas e encapava os livros com restos de tecidos e sobras de plásticos. Em casa havia sempre uma estante repleta desses exemplares e tínhamos a liberdade para folhear, rabiscar e recortar. Nada nos era proibido. Dos livros muitos não cheguei a ler, contentava-me em abrir e sentir o cheiro bom de livro velho.  Aqueles que eu lia me surpreendiam com páginas faltosas e me forçavam a imaginar o decorrer da história, os diálogos, os cenários, os personagens secundários. Comecei ali a escrever, motivadas pelas leituras incompletas que fazia.

Um certo dia, já na adolescência, me deparei com um livro bem deteriorado, de páginas amarelas, soltas e  marcados por traças. Era “Contos de Machado de Assis”. Não sei como fora parar em minha casa. Meu pai limpou, costurou e colou novamente as folhas, conservando seu formato original. O livro voltou à vida, ali estava um tesouro. Machado me acompanha até hoje.

A “Antologia Poética”, de Vinícius de Moraes, também apareceu por lá. Virou meu livro de cabeceira e embalou meus romances juvenis. Iniciei uma coleção de cactos por amor à Elegia Lírica.

"(...) A minha namorada é tão bonita, tem olhos como besourinhos do céu
Tem olhos como estrelhinhas que estão sempre balbuciando aos passarinhos
É tão bonita! tem cabelo fino, corpo menino e um andar pequenino
E é a minha namorada...Vai e  vem como um patativa, de repente morre de amor
Tem fala de S e dá a impressão que está entrando por um nuvem adentro
Meu Deus, eu queria brincar com ela, fazer comidinha, jogar nai-ou-nentes
Rir e num átimo dar um beijo nela e sair correndo
E ficar de longe espiando-lhe a zanga, meio vexado, meio sem saber o que faça..
A minha namorada é muito culta, sabe artimética, geografia, história, contraponto
E se eu lhe perguntar qual cor é a mais bonita ela não dirá que é roxo porém brique
Ela faz coleção de cactos, acorda cedo vai para o trabalho
E nunca se esquece que é a menininha do poeta"


E por falar em Cactos meu pai é um exímio jardineiro. Não de ofício, pratica a jardinagem por amor.
Ensinou-me a mexer na terra e a acreditar que as plantas purificam o ambiente. Tínhamos espadas de são Jorge e hortas em todas as casas que moramos. Em uma delas plantamos um abacateiro que nunca vi o fruto, mas que por anos esperei vê-lo florescer. Aprendi com meu pai que plantas convidam passarinhos, que convidam borboletas, que convidam gente de coração bom. A jardinagem replica o amor.

Ao lado dele está minha mãe, uma costureira admirável. Nunca me interessei pela arte da costura, mas me fascinava sua capacidade em ver algo escondido na essência de um pedaço de pano. Suas máquinas eram o parque de diversões das minhas bonecas, um castelo encantado fora do padrão.

Posso dizer que meus irmãos e eu crescemos em um lar favorável a arte de criar. Não fomos ensinados pelo viés artístico tradicional, tivemos como escola os quatro cantos da nossa casa e em nossos pais os melhores professores.  Vivemos nossa infância em um ambiente de estímulo ao desenvolvimento de habilidades emocionais e sociais. Ao vê-los transformando tudo ao nosso redor aprendemos que resignificar é o caminho para solucionar quase todos os problemas. Resignifique qualquer coisa, seja objetos, dores ou opinião, e verás que para tudo há sempre outras possibilidades.

A casa dos meus pais até hoje mantêm a mesma essência. A estante de livros e revistas velhas ainda está lá, as invenções do meu pai são renovadas a cada dia e as máquinas da minha mãe ainda servem de parque de diversões para bonecas. Não mais para as minhas. Atualmente eles exercem a função de avós de duas meninas lindas.












Um comentário:

  1. Nossa lany q lindooooo realmente escrito fielmente as características segundo seu irmão... rsrs Parabéns pela familia linda q tbm agora é minha. ..
    ♡♡♡

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